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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Psycho - Um Ensaio Sobre a Loucura

Olá Pessoal!

Já alguma vez se sentiram seguidos num beco escuro? Alguma vez se sentiram desconfortáveis quando alguém não tira os olhos de cima de vocês? Já se depararam com um rasto de sangue no passeio? E com sapos mortos e vestígios de voodo à porta de vossa casa? Este ensaio não é aconselhável para quem já passou por estas situações... Muito menos para quem desenvolveu algum tipo de pânico ou medrosos crónicos. E não esqueçamos os próprios psicopatas... Este é um ensaio para quem está interessado em ver filmes de perder a cabeça.
Psycho (de Alfred Hitchcock) - 1960
Este é um filme sobre aquele tipo de psicopatas em que a gente nota que há algo de estranho com aquela pessoa, mas não fazemos a menor ideia do que é. Norman Bates, interpretado por Anthony Perkins, era filho de uma mãe autoritária e manipuladora. Desta relação edipiana, Norman cresceu como um rapaz introvertido e demasiado rígido e tímido... Aparentemente, "incapaz de matar uma mosca". Pois... "ele" podia ser incapaz de tal coisa, mas o mesmo não se podia dizer da sua inválida mãe. Norman tornou-se esquizofrénico após a morte da mãe e esta sua personalidade maternal assegurou-se de que o filho lhe seria sempre fiel, tomando conta do seu motel, e matando qualquer rapariga que pudesse demonstrar o menor interesse pelo filho. O segredo de Hitchcock para o segredo deste filme? Fazer com que tivéssemos pena do pobre rapaz, de tal forma que nunca imaginariamos que este fosse um psicopata... e assassinasse a bela Janet Leigh durante o duche, nomeada para o oscar de melhor actriz secundária, assim como o realizador. Gus Van Sant fez também um remake deste filme, algo desnecessário.
Silence of the Lambs (de Jonathan Demme) - 1991/Hannibal (de Ridley Scott) - 2001/Dragão Vermelho (de Brett Ratner) - 2002
Hannibal - The Cannibal! Hannibal Lecter, psiquiatra brilhante, com uma inteligência superior, era afinal um canibal que comia quem não "merecia" habitar este planeta. Não precisa de apresentações. Talvez o psicopata mais famoso do mundo. Perto deste senhor, não se arrisquem a não ser algo menos que perfeitos. A mediocridade pode ser o vosso bilhete de morte. Este é um psicopata apaixonante, tal é o seu carisma, génio e ironia. Valeu um bem merecido oscar a Anthony Hopkins (no primeiro filme) e um ordenado chorudo por cada filme. Só a platónica relação que manteve com Clarice fez com que a respeitasse e ajudasse a apanhar outros assassinos enquanto preso na sua prisão de alta segurança. Esta investigadora do FBI, pela sua coragem e inteligência, era o perfeito objecto de desejo. Interpretada por Jodie Foster (que também ganhou um oscar) no Silêncio dos Inocentes e por Julliane Moore em Hannibal. Se alguma vez forem convidados para jantar com alguém assim, certifiquem-se que só aceitam se vos garantirem que não fazem parte da ementa.
Misery (de Rob Reiner) - 1990
Pensem duas vezes antes de se tornarem famosos. Nunca saberão até onde pode ir a loucura de uma das vossas fãs! Paul Sheldon, interpretado por James Caan, é um escritor que se tornou famoso devido a uma das suas personagens: Misery Chastain, uma heroína do século XX que sobrevive a diversas aventuras, romances e dramas pessoais. Um dia, farto de escrever sempre sobre uma personagem que nunca o cativou, decide matar a dita personagem. Livre dela, escreve finalmente a sua obra-prima num refúgio nas montanhas, e enquanto regressa a Nova Iorque, para o poder publicar, tem um acidente. Acontece que a sua fã#1 o encontra e resgata-o, antes de morrer dos ferimentos e do frio no meio da neve. Leva-o para sua casa, trata-o e alimenta-o, mantendo-o refém até que o seu escritor preferido resuscite Misery, escrevendo um novo livro só para ela. Kathy Bates ganhou o oscar de melhor actriz por este papel, tornando-se famosa com esta mulher perturbada, isolada nas montanhas, de trato difícil e com possíveis abusos em criança. O filme capta muito bem o tom do livro de Stephen King. Todavia, como leitor, tenho que afirmar que o livro é uma alucinante aventura pelo obscuro mundo do desespero, loucura e sofrimento...
Sir Arthur Connan Doyle também foi ameaçado de morte quando decidiu que Sherlock Holmes morreria no seu último livro. Déjà Vu?
Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street (de Tim Burton) - 2007
Não confiem em quem sabe manejar melhor lâminas do que vocês. Benjamin Barker (Johnny Depp), movido pela vingança, depois de ter perdido mulher e filha e ser exilado de Londres, por causa do juiz Turpin (Alan Rickman), sem escrúpulos, regressa à grande cidade com uma insaciável sede sanguinária. A conselho de Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter), que tem falta de clientela, decide adiar um pouco a sua vingança e ir treinando a arte da degolação nos seus clientes e outros inimigos (como o hilariante Sacha Baron Cohen). Mrs. Lovett usa os corpos para fazer as mais deliciosas empadas de Londres e juntos formam uma parelha de sucesso, que atrai cada vez mais clientes deprevenidos para a morte certa. Tim Burton adaptou magistralmente esta ópera de forma hilariante e simultaneamente assustadora. O sangue inunda o ecrã num filme musical que ficou para a história do cinema e arrebatou o oscar de melhor direcção artística. Protejam as vossas jugulares!

Shining (de Stanley Kubrick) - 1980
O trabalho pode levar-nos à loucura. E se, em vez de serem os outros a ameaça, formos nós próprios? Jack Nicholson interpreta aqui um ex-alcoolico que encontra uma oportunidade de emprego irresistível: Guardar o hotel Overlook durante o Inverno, totalmente isolado da civilização, apenas com a companhia da sua mulher e filho, onde poderá escrever o seu romance. Acontece que este hotel já tinha sido palco para outros acontecimentos macabros, e os fantasmas que o assombram encontram neste homem a marioneta perfeita para praticar as suas horríveis maldades. Um filme que tornou Stephen King famoso pelos seus assustadores livros e personagens perturbadas e que revolucionou o cinema de terror.
"All work and no play makes Jack a dull boy."
Deixo aqui um vídeo que exemplifica o que poderia ter acontecido naquele hotel se as coisas não tivessem corrido mal... http://www.youtube.com/watch?v=sfout_rgPSA
E tantos outros psicopatas que eu aqui podia ter mencionado... Heath Ledger como Jocker em The Dark Knight, Javier Bardem como Anton Chigurh em Este País Não é Para Velhos, Rebecca de Mornay como a belíssima e perigosa baby-sitter em A Mão que Embala o Berço, ou até mesmo Christian Bale como Patrick Bateman em American Psycho.

Loucos? Eles estão por todo o lado...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Insomnia - Um Ensaio sobre a Insónia

Olá pessoal,
Imagino que já todos vós tenham passado por noites em branco, em que, não importa quantas horas estejam deitados, quantos comprimidos tomem, quantos carneiros contem ou quantas voltas na cama dêem, não conseguem adormecer.
Bem, minha gente, posso dizer desde já que fazer um blog pode ser uma boa maneira de ocupar o tempo, tomar demasiados comprimidos pode matar, contar carneiros é aborrecido e que quando pararem de dar voltas na cama e adormecerem, o despertador toca e têm que se levantar.
A insónia é caracterizada pela falta de sono ou pela dificuldade em adormecer por vários dias e pode ter diferentes durações (transitória - devido a stress ou excitação; curta - alguns dias, devido a stress grave despoletado por problemas emocionais como o luto; e longa - pode durar semanas, relacionada com depressão, stress crónico e abuso de drogas). Contudo, o resultado é sempre o mesmo - na manhã seguinte andamos cansados, irritáveis e agressivos.
O cinema encontrou nestes sintomas algumas das personagens mais memoráveis da sétima arte.
Insomnia (de Christopher Nolan, 2002)
Em Insomnia, Al Pacino interpreta um detective que é enviado para uma vila do Alasca para investigar o homicídio de uma rapariga. Enquanto tenta capturar um suspeito, dispara acidentalmente contra o seu colega, matando-o. Em vez de assumir a culpa, diz que foi o fugitivo que o matou, o que apenas vai ampliar a complexidade emocional e o sentimento de culpa pelo seu acto. Entretanto, uma detective local (a duplamente galardoada Hillary Swank por Boys Don't Cry e Million Dollar Baby) conduz também ela uma investigação sobre o homicídio do colega de Al Pacino. Apesar de não parecer haver provas de que este seja o verdadeiro culpado, e da jovem detective o admirar e não desconfiar do seu alibi, Al Pacino começa a sofrer das mais terríveis insónias, numa cidade onde, devido ao interminável Sol da Meia Noite, o dia não cede a vez à noite. Tudo isto começa a causar-lhe alucinações e, para piorar, o culpado do primeiro homicídio (Robin Williams) tenta entrar em contacto com ele e contar-lhe pormenores do seu crime. Um dos melhores filmes de Christopher Nolan, realizador de Batman-O Início e O Cavaleiro Negro, Memento e The Prestige.
O Maquinista (de Brad Anderson, 2004)
O Maquinista, interpretado pelo soberbo Christian Bale (que se revelou ainda em criança com o filme de Spielberg - Império do Sol, e que agora é uma estrela de acção graças a Batman e ao último capítulo do Exterminador Implacável, que está agora nos cinemas), é um homem anorexico (o actor emagreceu até ao ponto que se pode observar na foto) que está a morrer de insónia crónica, não dormindo há mais de um ano. Progressivamente, começa a duvidar da sua própria sanidade, conforme os mais estranhos acontecimentos se vão dando na sua vida. Na fábrica, a fadiga pesa-lhe e os acidentes acontecem. Entretanto, é atormentado por um estranho colega de trabalho, deformado, que mais ninguém acredita que exista. E estranhos post-its vão aparecendo colados ao seu frigorífico, com o jogo da forca, para que este descubra qual a palavra escondida. Uma prostituta e uma empregada de bar são as únicas personagens que se preocupam com ele e as suas cordas de salvação, sendo também arrastadas para uma trama cada vez mais complexa e intrigante em que a realidade e a alucinação se confundem em pura luz do dia.
Clube de Combate (de David Fincher, 1999)
Este filme é, sem a menor dúvida, o meu filme preferido, o melhor que eu já vi na minha vida. Edward Norton é um homem que sofre de insónia crónica. Uma autêntica bomba-relógio à procura de algo que o resgate da sua vivência anónima e rotineira. É ele próprio quem relata a história, enquanto começa a infiltrar-se em grupos de entre-ajuda para doentes de cancro (especialmente os de cancro testicular, onde conhece uma outra infiltrada, Marla Singer, interpretada magistralmente por Helena Bonham Carter...). E é numa das suas muitas viagens de negócios que conhece Tyler Durden (Brad Pitt), um exêntrico vendedor de sabão feito a partir de gordura humana, roubada de clínicas de lipo-aspiração. Juntos formam um Clube de Combate ilegal, onde homens na mesma situação que ele encontram um escape para a desilusão da vida real. Este filme é uma revolução contra a apatia do socialmente correcto, contra o maniqueísmo de uma vida rotineira, contra o homem resignado a ser um autómato. É uma ode ao excêntrico, ao anormal, ao socialmente incorrecto, à desilusão da vida, dos sonhos não realizados, das ambições frustradas. E o criador desta revolução é um homem que não consegue dormir e embarca na loucura para combater aquela que ele acha que é a sua verdadeira doença.
A Estranha em mim (de Neil Jordan, 2007)
Este é um caso de insónia mais ligeira que as anteriores, mas com consequências nada menos importantes. Jodie Foster é Erica Bain, locutora de uma rádio de Nova Iorque, que percorre apaixonadamente as ruas dessa cidade, ouvindo os seus sons, a suas histórias, vendo e testemunhando "all the beauty and ugliness that is disappearing from our beloved city." Uma noite, após ter estado a tratar dos preparativos para o seu casamento com o seu apaixonado noivo, o casal é atacado por um gangue enquanto passeiam o cão no Central Park. Erica é deixada em coma, o cão é roubado e o noivo morre. Após recuperar a consciência e saber o que aconteceu, Erica é assumada pela dor do luto, pela injustiça e pela sede de vingança. Não consegue dormir. Durante a noite, vagueia pelas ruas de Nova Iorque, ruas que nunca antes tinha percorrido. Vendo-se demasiado insegura e desprotegida, procura obter uma arma ilegalmente. E assim que vê a sua vida ameaçada novamente, faz justiça pelas próprias mãos. Torna-se uma vigilante. Uma justiceira. E a sua insónia não desaparece, assim como a sede de vingança e do sentimento de culpa.
Pesadelo em Elm Street (de Wes Craven, 1984)
Finalmente, apenas um clássico que eu não podia ignorar. A história já é conhecida. Várias crianças que vivem em Elm Street começam a sonhar com um homem deformado, com facas em vez de dedos. Lentamente, começam a morrer durante o sono, um a um, e a protagonista descobre que têm que se manter acordados para ficarem a salvo, e a única forma de cortar o mal pela raiz é trazer o monstro para o mundo real, pois nos sonhos (ou pesadelos) ele é invencível. Wes Craven, mestre do terror, inventou esta história a partir de incidentes verídicos decorridos com três jovens cambodjanos, sobreviventes do genocídio de Pol Pot (?), em que morreram após terem horríveis pesadelos. Aparentemente, primeiro, eles começavam por ter horríveis pesadelos, recusavam-se a dormir durante vários dias, até que acabavam por adormecer devido à exaustão. Acordavam então aos gritos e morriam com um ataque cardíaco. O último caso (destes três) usou vários métodos para se tentar manter acordado, (alguns dos quais utilizados pelas personagens do filme, como ter um termo com café, para ir bebendo às escondidas) e tentou persuadir os pais a acreditarem nele, quando dizia que morreria se adormecesse.
E assim termino o meu ensaio sobre a insónia. Deixo ao vosso critério descobrir o que está por detrás das insónias de cada um. Esta pequena lista de filmes é sugestiva de algumas razões.
Será que o meu vizinho assassinou alguém? Será que o meu colega de trabalho é tão louco quanto parece e sofre de alucinações? Será que a mulher que me serve o café se prepara para destruir as bases da sociedade? Será que o condutor deste autocarro está de luto? Será que aquele tipo com as olheiras não dorme devido a uma insaciável sede de vingança? Ou será que a Nancy não dorme, porque tem medo de morrer?